A Avó Mágica

English version available bellow.

É Primavera.

A casa cheira a citronela e madeira antiga. Estou na sala de estar, sentada num sofá de dois lugares, em frente à lareira apagada, com as minhas primas e o meu irmão. Na pequena televisão de canto, dois homens vestidos de palhaço anunciam o início de mais um episódio de Samurai X — uma das raras séries consensualmente aprovadas por esta plateia.

É hora do lanche. A nossa Avó vai depositando na mesa de madeira pacotes de Bongo, bolachas em forma de dinossauro e bicos de pato com fiambre, que devoramos copiosamente.

Sempre tive boa memória, daquelas que mantêm intactos os meandros da infância. Lembro-me dos cheiros, da comida, da companhia e do que senti com uma clareza e nitidez tais que quase lhes consigo tocar. Por este motivo, sei que a grande bênção da infância é a despreocupação e que os melhores adultos são ajudantes invisíveis, que permitem à criança respirar, lhe dedicam o seu tempo, facilitam a imaginação e não toleram que a pressa a envenene.

Terminado o lanche, vamos brincar para o jardim. A japoneira, nascida muito antes de qualquer um de nós, tem um ramo perfeito para nos pendurarmos, balançarmos e esticarmos. Abraçamos a árvore, sentamo-nos debaixo dela e bebemos da frescura da sua sombra. Limpamos as mãos à roupa, sabendo que ninguém nos vai ralhar por isso. Com flores apanhadas do chão e um pouco de água, fazemos perfumes e mágicas poções dentro de vasos de terracota. Convivemos com os insectos, andamos de baloiço e rimos, numa harmonia de cristal que qualquer adulto reconhece como temporária.

A japoneira e o seu ramo perfeito. | Camellia tree

Inevitavelmente, instala-se o caos.

Há uma altercação entre o meu irmão e a minha prima mais velha, potenciada por convicções diferentes acerca dos ingredientes ideais para determinado perfume. A minha prima zanga-se e despeja o conteúdo do vaso sobre a cabeça do seu colega perfumista. Seguem-se gritos, choro, possivelmente um empurrão ou outro, e, rapidamente, surge a juíza.

Quantas vezes os pais, quando confrontados com desentendimentos entre os filhos e motivados pelo cansaço, solucionam a coisa de forma abrupta, sem mediação ou finalização do assunto para a criança, com um peremptório “Acabou a discussão, portem-se bem.”, deixando ofensor e ofendido em pé de igualdade e originando sentimentos de frustração e injustiça?

A nossa Avó apresentava, para estas quezílias, uma solução à qual chamava “A Borrachinha Mágica”: uma pedra verde em forma de coração, adornada com contas e envolvida por um metal dourado, em cima da qual um de nós escreveu grosseiramente “borracha sagrada para apagar o que está mal”. Esta “borracha” era — depois de discutido o caso, averiguadas as narrativas das testemunhas e definido o grau de culpabilidade do réu — trazida pela juíza à sala de audiências e tinha o poder mágico de, apresentadas as desculpas sinceras de todos os envolvidos, apagar a má acção e restaurar a alegria e o amor. Na altura, eu desconhecia por completo o conceito de Ho’oponopono. Mas a minha avó, do alto da sua quinquagésima década de vida, sabia perfeitamente como usar este e outros métodos para nos conduzir, deixando-os infiltrar-se, quase sem darmos conta, naquilo que viríamos a ser.

Borrachinha Mágica | Magic Eraser

A Borrachinha Mágica não era o único objecto encantado daquela casa. Em toda a parte, havia pequenos tesouros: a escultura de bronze do artista Bernard Potel, que a minha avó denominou de Mulher da Lua (mas que na verdade se chama Femme Assise), quadros com mandalas, uma arca de madeira abarrotada de brinquedos, o armário dos chocolates que cheirava a After Eight, baloiços, um lago para o qual cada neto pôde escolher uma carpa e dar-lhe nome, e o must-have de qualquer infância: o interdito sótão, que albergava todos os potenciais mistérios que alimentam a imaginação de uma criança.

Na cave, numa divisão contígua ao escritório do meu avô, a minha avó mantinha uma pequena Sala das Necessidades: uma espécie de caverna mágica onde guardava o stock da sua empresa de distribuição de chás e óleos essenciais, mas também onde eram costurados os detalhados disfarces de Carnaval, que passaram de prima em prima, ano após ano, e que servia ainda como quartel-general do Clube dos Verdes da Terra, uma associação sem fins lucrativos que os primos criaram para salvar o Planeta Azul. Em 1998, os meus avós levaram-nos a ver o filme Anastasia. Chegados a casa, abriram a sua enciclopédia Larousse para nos mostrar uma fotografia do verdadeiro Rasputine, e a obsessão cresceu de tal forma que todas fomos vestidas de Anastasia à vez no Carnaval. Durante toda a nossa infância, de quando em vez, lá íamos nós em debandada para a cave, procurar a fotografia do Rasputine, para depois desatarmos aos gritinhos de pavor e corrermos, escada acima.

Grand Larousse | Rasputin

Quando um de nós apresentava o menor sinal de desconforto físico, a Avó Mágica descia as escadas, emergindo carregada de tomilho, mel, gengibre e óleo essencial de lavanda ou canela, para posteriormente nos untar com aquelas mezinhas que curavam todas as maleitas — reais e imaginárias.

Subindo as escadas em caracol e passando do piso da sala para o dos quartos, entrava-se no campo quimérico do intocável. No quarto de hóspedes, enormes gavetas forradas a tecido acomodavam mágicos cristais de todas as formas e tamanhos: esferas de quartzo rosa, pirâmides de turmalina e ametista, cubos de fluorita, e, claro, cristais puros nas suas fantásticas formas e feitios naturais. Assim, aprendi que um cristal verdadeiro é sempre frio ao toque e que cada um deles carrega milénios da natureza. Mais importante ainda, aprendi que a magia nos espera onde estivermos dispostos a encontrá-la.

Em cima da mesa da sala de visitas, estava um suporte de velas com o formato e as cores do Yin e Yang. A minha avó costumava explicar-me que tudo o que existe no mundo é composto por uma coisa e o seu inverso, e que essa dualidade que concebe o “todo” e o equilibra está, também, presente em nós. Não demorou muito até que eu me apercebesse que ela era o melhor exemplo prático disso: dentro de si coabitavam a luz radiante do sol e o negrume profundo do oceano. Tanto era capaz de me proporcionar maravilhosas tardes a ver filmes antigos, a esculpir, a cozinhar e a conversar sobre os mais variados temas, como, sem motivo aparente, mergulhava numa melancolia e irritação obstinadas que acabavam por desbravar caminho para os seus preconceitos e condescendência — provocando discussões terríveis ou, na melhor das hipóteses, momentos muito desagradáveis.

De todos os netos, sou eu a mais parecida com ela, o que sempre se me afigurou como uma ironia cruel. Talvez devido a essas semelhanças — ou ao facto de, em tantos aspectos, sermos polares opostos — tenhamos chocado de frente toda a vida, e a nossa relação se tenha deteriorado tanto nos últimos anos. Para todas as histórias há um milhão de possíveis explicações, e quase nunca se chega à verdadeira, possivelmente porque a verdade absoluta nem sempre existe, ou sequer importa.

Numa gelada noite de Março de 2024, com a minha avó o mais longe possível do pensamento, fui a um colóquio com um Tulku — um mestre espiritual reencarnado, de acordo com a doutrina do budismo tibetano — no qual se debateram várias questões ligadas ao budismo. Ao meu lado estava uma cara familiar, que mais tarde reconheci com espanto como pertencendo a uma conhecida da minha avó. Meti conversa e, quando a minha interlocutora, inevitavelmente, perguntou por ela, apercebi-me de que não fazia ideia do que lhe responder. Não desejando abordar a natureza complexa da nossa relação, disse apenas que se encontrava sempre igual, ao que a senhora me respondeu “Evidentemente, com a vida que sempre levou, tem que estar muito bem. Vai, com toda a certeza, viver muitos anos. Por favor, envie-lhe os meus cumprimentos”.

Na mesma noite, tivemos a oportunidade de falar numa sala a sós com o convidado sobre um tema à nossa escolha. Durante a minha sessão, conversámos sobre ioga, karma e outros temas que tendem a despertar a minha curiosidade. Mais tarde, regressei para servir de intérprete na sessão de uma senhora que não compreendia inglês. Desta feita, a conversa foi sobre o fim da vida, a reencarnação e o ciclo da vida e da morte — um cativante debate acerca da alma, do corpo, da natureza e do espírito.

Ao longo da manhã seguinte, pensei em telefonar à minha avó para lhe relatar esta sequência de acontecimentos que me pareceu, de alguma forma, predestinada. Pela primeira vez em anos, tive vontade de lhe falar, mas quis o destino que eu nunca lhe tenha podido relatar esta deliciosa coincidência, que mais ninguém no mundo compreenderia tão bem.

Ao comentar esta minha vontade com a minha mãe, ela informou-me que ela adoecera nessa manhã, e que não era oportuno ligar-lhe. No dia seguinte, o último em que a minha avó esteve consciente, fui a casa dela. Não falávamos há quase dois anos, e não nos víamos há outros tantos, mas, mal entrei no quarto, uma troca de olhares foi suficiente para o nevoeiro se dissipar. Talvez pareça mentira, uma forma fácil de encerrar um passado turbulento, mas, em toda a verdade, assim foi. Porque ela era parte de mim, e eu dela, possivelmente de uma forma que nunca será possível compreender ou explicar.

Essa foi a última vez que a vi.

A Avó Né partiu para outra dimensão no dia 7 de Abril de 2024, aos oitenta anos, da mesma doença que toda a vida temeu que a levasse. A sua casa, onde nasceu e viveu, primeiro com os pais, depois com a mãe — na sequência do horrível divórcio dos meus bisavós — e depois com o meu avô, onde deu à luz os seus dois filhos, criou e geriu o seu negócio e acolheu os cinco netos que se seguiram, permanece intocada, com o mesmo cheiro e os mesmos objectos, embora em lugares diferentes.

Femme Assise | A Mulher da Lua | The Moon Woman

A mim, deixou-me o amor pelas plantas e pelos animais, pela música, pela cozinha e pelos livros. O interesse não vinculativo por religiões e pelos aspectos positivos que delas podemos aprender e aplicar na nossa vida. O amor por filosofia e pela psicologia, mas, no meu caso, com algum ímpeto para as implementar. O medo de doenças, a ansiedade e uma certa tendência para o pessimismo, que me esforço por contrariar. Os óleos essenciais. O ioga. O ballet e a música clássica. O interesse por viagens, museus e arte, que é o pilar da minha vida. O cheiro da sua casa, que com os anos se tornou o cheiro da minha. A curiosidade e a lente através da qual encontro pequenos milagres todos os dias.

E, talvez, o mais importante: um autoconhecimento que tento cultivar, para que também eu, um dia, possa vir a ser um adulto mágico para uma qualquer criança, e a consciência de que, mesmo quando tudo parece por resolver, uma qualquer Borrachinha Mágica vem do passado para nos permitir terminar em paz.

English Version

The Magic Grandma

It is spring.

The house smells of citronella and old wood. I am in the living room, sitting on a small two-seater sofa in front of the unlit fireplace, with my cousins and my brother. On the little television in the corner, two men dressed as clowns announce the beginning of another Samurai X episode — one of the rare shows unanimously approved by this audience.

It’s snack time. Our grandmother sets things down on the wooden table one by one: cartons of Bongo juice, dinosaur-shaped biscuits, and ham-filled pastries shaped like duck beaks, which we eagerly devour.

I have always had a good memory — the kind that preserves the inner pathways of childhood. I remember the smells, the food, the company, and my feelings with such clarity that it almost feels as if I could reach out and touch them. Because of this, I know that the great blessing of childhood is freedom from worry, and that the best adults are invisible helpers: the ones who let a child breathe, who give them their time, who make space for imagination, and who refuse to let haste poison it.

When we finish eating, we go out to play in the garden. The camellia tree, older than any of us, has the perfect branch for hanging, swinging, stretching. We hug the tree, sit beneath it, and drink in the coolness of its shade. We wipe our hands on our clothes, knowing no one will scold us for it. With flowers gathered from the ground and a little water, we make perfumes and magical potions in terracotta pots. We coexist with insects, we swing, we laugh — in a crystalline kind of harmony that any adult would recognise as fleeting.

Inevitably, chaos settles in.

An argument breaks out between my brother and my older cousin, fuelled by differing convictions about the ideal ingredients for a particular perfume. My cousin gets angry and pours the contents of the pot over her fellow perfumer’s head. There are shouts, tears, perhaps a shove or two — and then, suddenly, the judge appears.

How often do parents, worn down by exhaustion and faced with their children’s disputes, put an abrupt end to things — no mediation, no real resolution — with a blunt “That’s enough, behave yourselves,” leaving both sides on equal footing and planting the seeds of frustration and injustice?

Our grandmother had a solution for these quarrels, which she called the “Magic Eraser”: a green, heart-shaped stone, adorned with beads and wrapped in gold-coloured metal, on which one of us had clumsily written “sacred eraser to wipe away what is wrong.” This “eraser” was — once the case had been discussed, the testimonies heard, and responsibility established — brought by the judge into the courtroom, and it held the magical power that, once sincere apologies had been offered by everyone involved, it could erase the wrongdoing and restore joy and love.

At the time, I knew nothing of concepts like Ho’oponopono. But my grandmother, well into her fifties, knew exactly how to use this and other methods to guide us — allowing them to seep quietly, almost unnoticed, into who we would become.

The Magic Eraser was not the only enchanted object in that house. Everywhere, there were small treasures: a bronze sculpture by Bernard Potel, which my grandmother called Woman of the Moon (though its real name is Femme Assise), mandala paintings, a wooden chest overflowing with toys, the chocolate cupboard that smelled of After Eight, swings, a pond where each grandchild could choose a carp and give it a name, and the essential feature of any childhood: the forbidden attic, home to all the possible mysteries that feed a child’s imagination.

In the basement, in a room next to my grandfather’s office, my grandmother kept a small Room of Requirement: a kind of magical cave where she stored the stock for her tea and essential oils business, but also where our elaborate Carnival costumes were sewn — passed from cousin to cousin, year after year — and which also served as the headquarters of the Greens of the Earth Club, a non-profit we cousins created to save the Blue Planet. In 1998, my grandparents took us to see the animated film Anastasia. When we got home, they opened their Larousse encyclopedia to show us a photograph of the real Rasputin, and the fascination grew into obsession: we all took turns dressing up as Anastasia for Carnival. Throughout our childhood, every so often, we would rush down to the basement to find Rasputin’s photograph, only to shriek in fright and run back upstairs.

Whenever one of us showed the slightest sign of discomfort, the Magic Grandmother would go downstairs and reappear carrying thyme, honey, ginger, and essential oils of lavender or cinnamon, and then tend to us with those remedies that cured every ailment — real or imagined.

On the table in the sitting room stood a candle holder shaped and coloured like Yin and Yang. My grandmother used to explain to me that everything in the world is made of a thing and its opposite, and that this duality, which forms and balances the whole, is also within us. It did not take long for me to realise that she herself was the clearest example of this: within her coexisted the radiant light of the sun and the deep darkness of the ocean. She could offer wonderful afternoons watching old films, sculpting, cooking, and talking about all kinds of things — and, just as suddenly, sink into a stubborn melancholy and irritation that would give way to prejudice and condescension, leading to terrible arguments or, at best, deeply uncomfortable moments.

Of all the grandchildren, I am the one most like her — something that always felt like a cruel irony. Perhaps because of those similarities — or because, in so many ways, we were polar opposites — we clashed head-on throughout our lives, and our relationship deteriorated in later years. Every story allows for a million explanations, and one almost never reaches the true one — perhaps because absolute truth does not always exist, or does not even matter.

On a cold night in March 2024, with my grandmother as far from my thoughts as possible, I attended a talk with a Tulku — a reincarnated spiritual master in Tibetan Buddhism — where various questions related to Buddhism were discussed. Sitting beside me was a familiar face, whom I later realised, to my surprise, was an acquaintance of my grandmother. We began talking and, when she inevitably asked about her, I realised I had no idea what to say. Not wanting to go into the complexity of our relationship, I simply said she was just the same as ever, to which the woman replied, “Of course — with the life she has always led, she must be very well. She will certainly live many more years. Please give her my regards.”

That same evening, we had the chance to speak privately with the guest about a topic of our choosing. During my session, we talked about yoga, karma, and other subjects that tend to spark my curiosity. Later, I returned to act as an interpreter for a woman who did not understand English. This time, the conversation turned to the end of life, reincarnation, and the cycle of life and death — an engaging reflection on the soul, the body, nature, and the spirit.

The following morning, I thought about calling my grandmother to tell her about this sequence of events, which felt — in some quiet way — almost destined. For the first time in years, I wanted to speak to her. But fate had it that I would never be able to share this small, beautiful coincidence — one that no one else in the world would have understood quite the same way.

When I mentioned this to my mother, she told me my grandmother had fallen ill that morning, and that it was not the right time to call. The next day — the last day my grandmother was conscious — I went to her house. We had not spoken in almost two years, and had not seen each other for just as long, but the moment I walked into the room, a single exchange of glances was enough for the fog to lift. It may sound improbable — too simple an ending for something so turbulent — but it was true. Because she was part of me, and I of her, in a way that may never be fully understood or explained.

That was the last time I saw her.

My grandmother passed into another dimension on April 7th, 2024, at the age of eighty, from the same illness she had always feared would take her. Her house — where she was born and lived, first with her parents, then with her mother after my great-grandparents’ painful divorce, and later with my grandfather; where she gave birth to her two children, built and ran her business, and welcomed the five grandchildren who followed — remains untouched, with the same smell and the same objects, though in different places.

To me, she left a love of plants and animals, of music, cooking, and books. A quiet, non-dogmatic interest in religion and in the good we can take from it and bring into our lives. A love of philosophy and psychology, and, in my case, a certain urgency to put them into practice. A fear of illness, anxiety, and a tendency toward pessimism that I try to resist. Essential oils. Yoga. Ballet and classical music. A love of travel, museums, and art, which has become the pillar of my life. The smell of her house, which, over time, has become the smell of mine. Curiosity, and the lens through which I find small miracles every day.

And perhaps most importantly: a self-awareness I try to cultivate, so that one day I, too, might become a magical adult for some child — and the understanding that, even when everything seems unresolved, some small Magic Eraser can come back from the past and allow us to find our way to a peaceful ending.

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